Evento promovido pelo Projeto Entre Águas Amazônicas reuniu comunidades manejadoras de pirarucu e empresas do setor alimentício interessadas em fortalecer a cadeia produtiva sustentável da região
Da Redação – Portal O Login da Notícia
Distribuidores, supermercados, restaurantes e demais interessados na comercialização de pescado sustentável participaram, no dia 27 de agosto, em Tefé (AM), da XVIII Rodada de Negócios do Pirarucu de Manejo Sustentável. O encontro reuniu grupos manejadores, compradores e representantes envolvidos na cadeia produtiva do pirarucu, promovendo negociações diretas com comunidades que atuam no manejo sustentável da espécie.
Durante o evento, associações e grupos de manejadores assessorados pelo Instituto Mamirauá tiveram a oportunidade de negociar diretamente com empresas e discutir possíveis acordos comerciais. A iniciativa contribuiu para fortalecer o modelo produtivo, conciliando a conservação dos recursos naturais com o desenvolvimento sustentável e social das comunidades que atuam com o manejo da espécie.
“A Rodada de Negócios é muito mais do que um espaço para comercialização da produção anual. É o momento em que aproximamos diretamente as comunidades manejadoras dos compradores, fortalecendo relações comerciais de longo prazo e demonstrando que é possível conciliar conservação da biodiversidade, geração de renda e desenvolvimento sustentável na Amazônia”, afirmou Ana Cláudia Gonçalves, coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá.
A Rodada de Negócios do Pirarucu é realizada anualmente há 18 anos e, nos últimos dois anos, passou a integrar o Projeto Entre Águas Amazônicas, executado pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O projeto conta com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF).
Assessoramento pós-evento
Após a Rodada de Negócios, o Instituto Mamirauá continuou acompanhando as tratativas, oferecendo suporte na elaboração de contratos de compra e venda da produção e orientações sobre os procedimentos para o ingresso local nas unidades de conservação, a emissão das guias de trânsito e comercialização da produção e a declaração de estoque.
“A crescente demanda por alimentos produzidos de forma sustentável representa uma oportunidade importante para as comunidades amazônicas. Os alimentos aquáticos fornecem pelo menos um quinto da proteína animal consumida por cerca de 3,1 bilhões de pessoas, e o setor pesqueiro sustenta mais de 600 milhões de empreendimentos que se constituem em meios de vida de famílias, principalmente rurais, em todo o mundo, segundo o último relatório ‘O Estado Mundial da Pesca e da Aquicultura’ — SOFIA 2026, divulgado pela FAO”, afirmou Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.
Safra de 2026
Realizada em Tefé, a XVIII Rodada de Negócios marcou o início da comercialização da safra de pirarucu de manejo de 2026. A previsão para a temporada é de aproximadamente 630 toneladas de pescado, cuja comercialização ocorre por meio de feiras, da Marca Coletiva Gosto da Amazônia, da Indicação Geográfica Mamirauá e da Rodada de Negócios.
Mais de 60% da produção prevista esteve disponível para negociação durante o evento, que se consolidou como um dos principais ambientes de articulação comercial da cadeia produtiva do pirarucu de manejo sustentável.
Na edição de 2025, a Rodada de Negócios reuniu representantes de 18 grupos de manejo, envolvendo 45 comunidades e aproximadamente 940 manejadores e manejadoras da região do Médio Solimões, demonstrando a capacidade de organização e produção das comunidades participantes.
Referência em recuperação de recursos pesqueiros
Os resultados alcançados pelo manejo refletem mais de 25 anos de construção conjunta entre pesquisadores, técnicos e comunidades amazônicas. A iniciativa transformou um peixe ameaçado pela sobrepesca em uma das maiores referências mundiais de manejo sustentável de recursos pesqueiros.
Nas áreas assessoradas pelo Instituto Mamirauá e instituições parceiras, as populações de pirarucu aumentaram cerca de 620% desde o início do programa de manejo, enquanto a atividade já gerou mais de R$ 40 milhões em renda para as comunidades envolvidas.
Atualmente, o manejo sustentável do pirarucu é reconhecido como uma das experiências brasileiras de maior destaque no uso sustentável da biodiversidade, conciliando conservação dos recursos naturais, segurança alimentar e desenvolvimento socioeconômico.
Além da recuperação populacional da espécie, o manejo também permitiu o retorno de indivíduos de grande porte. O tamanho dos pirarucus capturados é um dos indicadores utilizados para avaliar a recuperação dos estoques de peixes. Atualmente, nas áreas de manejo, os pirarucus pescados apresentam comprimento médio de 1,72 metro, com registros de exemplares superiores a 2,40 metros.
Beneficiando a região em seus aspectos ambientais e sociais, o modelo também atende à crescente demanda do mercado por alimentos produzidos com responsabilidade socioambiental. Cada exemplar comercializado é proveniente de áreas manejadas, onde a pesca ocorre sob critérios técnicos, monitoramento científico e protagonismo das comunidades locais, garantindo a legalidade, a rastreabilidade e a sustentabilidade do produto.
Projeto Entre Águas Amazônicas
O Projeto Entre Águas Amazônicas busca fortalecer processos participativos de gestão dos recursos naturais, a conservação da biodiversidade amazônica e a manutenção dos estoques de carbono, especialmente em áreas protegidas dos estados do Amazonas, Pará e Amapá.
Instituto Mamirauá
Fotos: Tácio Melo
