Participação comunitária na arqueologia e descobertas arqueológicas foram apresentadas pela arqueóloga Geórgea Holanda (Fotos: Miguel Monteiro)
Da Redação – Portal O Login da Notícia
Entre os dias 15 e 19 de julho, a cidade de Lima, no Peru, sediou o I Congresso Internacional de Arqueologia Americana (CIAA 2026), reunindo arqueólogos, pesquisadores e especialistas de diferentes países para discutir as interações socioculturais e espaciais das sociedades pré-hispânicas e originárias das Américas. Entre os representantes do Brasil esteve a arqueóloga do Instituto Mamirauá, Geórgea Holanda. Convidada pela organização do evento, ela ministrou a palestra “Arqueologias no Médio Solimões: saberes construídos com as comunidades tradicionais”, na qual apresentou experiências e resultados de pesquisas arqueológicas desenvolvidas na região.
O congresso teve como principal objetivo fortalecer o diálogo e a cooperação científica entre pesquisadores do continente, incentivando estudos que ultrapassem as fronteiras nacionais e ampliem a compreensão sobre as conexões históricas, culturais e ambientais que marcaram a antiga América.
Para Geórgea Holanda, o evento representou uma oportunidade de compartilhar experiências construídas coletivamente no Médio Solimões.
“A ideia central da apresentação foi mostrar que existem múltiplas arqueologias no Médio Solimões, desenvolvidas por uma equipe diversa, e destacar que nosso trabalho é construído de forma colaborativa com as comunidades tradicionais. São essas pessoas que identificam sítios arqueológicos, nos levam aos locais onde encontram vestígios e nos ensinam sobre como fazer arqueologia na Amazônia. É um trabalho profundamente ligado às pessoas da região e feito com elas.”

Segundo a arqueóloga, a participação no congresso também permitiu evidenciar um modelo de pesquisa construído a partir da realidade amazônica e da valorização do conhecimento das comunidades tradicionais.
“Quis mostrar uma arqueologia construída de dentro para fora, com profissionais da própria Amazônia. Nosso trabalho é desenvolvido de forma colaborativa com as comunidades, que identificam sítios arqueológicos, compartilham seus conhecimentos e nos ensinam sobre como fazer arqueologia na Amazônia.”
Geórgea também destacou a importância de ampliar a presença da arqueologia amazônica em eventos científicos internacionais.
“Se a gente comparar a arqueologia do Médio Solimões com outras regiões do Brasil, percebemos que, apesar de mais de 40 anos de pesquisas, ela ainda é relativamente pouco conhecida. Por isso, é muito importante apresentar esse trabalho em um evento internacional, ultrapassando as fronteiras e mostrando para outros países o conhecimento que vem sendo produzido na região.”
Nas últimas décadas, as pesquisas arqueológicas desenvolvidas em parceria com comunidades tradicionais têm sido fundamentais para ampliar o conhecimento sobre a ocupação humana da Amazônia. Os estudos mostram que a região é habitada há milhares de anos por povos indígenas, muito antes da chegada dos colonizadores europeus, contribuindo para a compreensão da história da Amazônia e do Brasil.
A atuação dos arqueólogos junto às comunidades ribeirinhas do Médio Solimões
Na Amazônia, muitos vestígios do passado permanecem preservados sob o solo das comunidades que hoje habitam a região. Para revelar essa história, pesquisadores do Instituto Mamirauá desenvolvem pesquisas arqueológicas em parceria com comunidades ribeirinhas e povos indígenas, reconhecendo essas populações como protagonistas na identificação, preservação e interpretação do patrimônio arqueológico.
“Das comunidades que escavamos aqui na região, muitas já sabiam da importância desses achados. Sabem que ali viveram seus avós, bisavós, tataravós, enfim, seus ancestrais. Então, essas pessoas acabam sendo as protagonistas de suas próprias histórias, porque são elas que encontram esses materiais, nos informam, e é nossa obrigação acolhê-las e valorizar o material encontrado nos sítios arqueológicos que elas chamam de lar”, destacou o arqueólogo Márcio Amaral, do Instituto Mamirauá.
Com o fortalecimento dessa parceria ao longo dos anos, as comunidades tradicionais passaram a participar de forma cada vez mais ativa das pesquisas arqueológicas na Amazônia. Esse modelo, conhecido como arqueologia colaborativa, valoriza os saberes locais e reconhece moradores e moradoras como agentes fundamentais na construção do conhecimento sobre a história dos povos que ocuparam a região.
Instituto Mamirauá
