Psicanalista aponta que medo de se confrontar, dificuldade de lidar com o outro e a banalização do sofrimento ajudam a explicar a resistência ao tratamento. (Foto/Divulgação)
Da Redação – Portal O Login da Notícia
Manaus (AM) – Reconhecer que alguma coisa não vai bem, mas ainda assim adiar a procura por ajuda. Para o psicanalista Diego Anunciação, esse comportamento se tornou uma das faces do adoecimento emocional contemporâneo. Em uma sociedade marcada por relações cada vez mais complexas, conflitos interpessoais, ansiedade e dificuldades de lidar com as próprias emoções, a pergunta deixa de ser apenas “quando procurar terapia?” e passa a ser também: “por que, mesmo sabendo que preciso de ajuda, continuo evitando o divã?”
Para Diego, a resistência ao tratamento não está necessariamente relacionada à falta de percepção sobre o próprio sofrimento. Muitas pessoas reconhecem que precisam de acompanhamento, mas encontram obstáculos emocionais, culturais e até financeiros para dar o primeiro passo.
“As pessoas estão doentes. Elas reconhecem a necessidade de fazer terapia, de fazer análise, mas não chegam ao divã. Muitas vezes, porque ainda não conseguem compreender a diferença entre o preço e o valor de viver uma terapia. Existe um investimento que vai muito além do financeiro: é o investimento em si mesmo”, explica.
O especialista observa que a necessidade de acompanhamento também está relacionada à dificuldade cada vez maior de lidar com a presença do outro. Para ele, a análise pode ajudar o indivíduo a compreender não apenas os conflitos internos, mas também a maneira como estabelece relações no cotidiano.
“A gente precisa aprender a lidar com a figura do outro. E isso vale tanto para dentro das relações quanto para a vida cotidiana. A psicanálise nos coloca diante dessas questões e nos ajuda a compreender aquilo que acontece conosco quando encontramos o outro, quando somos confrontados pelo outro e quando precisamos conviver com diferenças, frustrações e limites.”
Quando o sofrimento deixa de ser apenas uma fase?
Uma das questões que podem levar uma pessoa a procurar acompanhamento é justamente a dificuldade de identificar quando determinado sofrimento ultrapassou os limites de uma experiência passageira e começou a interferir na vida cotidiana.
Mudanças persistentes de comportamento, isolamento, conflitos recorrentes, dificuldade de estabelecer relações, sensação de vazio, perda de interesse por atividades antes prazerosas e pensamentos relacionados à morte podem ser sinais de que é necessário buscar ajuda profissional. A avaliação, entretanto, deve ser individualizada por profissionais habilitados.
Segundo Diego, a clínica tem revelado demandas que vão muito além dos conflitos amorosos ou familiares. O psicanalista afirma que questões relacionadas ao adoecimento emocional da sociedade aparecem de diferentes formas no consultório.
“Apesar de eu trazer muitas demandas voltadas para os relacionamentos, existem muitas outras questões girando dentro da clínica que conversam diretamente com a sociedade de hoje. O adoecimento emocional e psicológico está muito presente. A gente está falando de pessoas que estão tentando dar conta de uma vida inteira sem necessariamente conseguir elaborar aquilo que estão vivendo.”
O medo de olhar para dentro
Para o psicanalista, outro fator que pode afastar algumas pessoas da terapia é o receio do que pode ser encontrado durante o processo de análise. Procurar ajuda significa, em muitos casos, entrar em contato com conflitos, desejos, frustrações e experiências que nem sempre são confortáveis.
“A terapia não é simplesmente um lugar para alguém dizer o que você deve fazer. É um espaço para escutar aquilo que muitas vezes você não consegue escutar sozinho. E isso pode ser desconfortável. Às vezes, a pessoa prefere continuar repetindo determinados comportamentos a se confrontar com aquilo que está por trás deles.”
Nesse contexto, Diego considera que a própria ideia de procurar terapia ainda precisa ser dissociada da noção de fracasso ou incapacidade.
“Cuidar da mente não deveria ser entendido como sinal de fraqueza. Pelo contrário. Existe uma maturidade em reconhecer que determinadas questões precisam de escuta e que nem tudo precisa ser resolvido sozinho.”
Dados: JAMA Psychiatry revela que apenas cerca de 7% das pessoas com transtornos mentais no mundo recebem tratamento eficaz. A pesquisa aponta que a principal barreira não é a falta de recursos, mas a dificuldade do próprio paciente em reconhecer que precisa de ajuda profissional.
Saúde mental e o adoecimento da sociedade
O psicanalista chama atenção ainda para um fenômeno que considera particularmente preocupante: a presença recorrente de pensamentos relacionados à morte entre pessoas que chegam ao atendimento.
“O suicídio está muito presente. O desejo de morte, a ideação de morte também estão muito presentes. É impressionante perceber como as pessoas têm tido esse tipo de pensamento e, muitas vezes, carregam isso silenciosamente.”
A afirmação reforça a importância de ampliar a discussão pública sobre saúde mental sem transformar sofrimento psíquico em diagnóstico automático. Para Diego, falar sobre o tema também significa estimular a busca por profissionais qualificados e criar uma cultura na qual pedir ajuda seja compreendido como parte do cuidado com a própria vida.
A psicanálise, nesse sentido, oferece uma perspectiva voltada à escuta e à compreensão dos conflitos subjetivos, enquanto diferentes formas de acompanhamento podem contribuir para que o indivíduo desenvolva recursos para lidar com situações de sofrimento. A indicação do tratamento e da abordagem mais adequada deve considerar as necessidades de cada pessoa.
Para Diego Anunciação, o principal desafio talvez seja justamente transformar o reconhecimento do sofrimento em uma atitude concreta de cuidado.
“Às vezes, a pessoa já sabe que precisa de ajuda. Ela sabe que não está bem. A questão é o que faz com esse reconhecimento. O primeiro passo pode ser justamente permitir-se conversar com um profissional e descobrir que não precisa atravessar tudo sozinho.”
