O terreiro, com mais de 50 anos de existência, foi um dos destaques do documentário por sua importância espiritual, cultural e social para o município (Foto: Bruno Pacheco – Portal O Login)
Bruno Pacheco – Portal O Login da Notícia
O lançamento do documentário “Patrimônio Cultural de Itacoatiara – Para além do cal e da pedra”, na última terça-feira, 19, foi mais do que uma celebração à história e à fé: foi também um alerta. O filme, idealizado pelo pesquisador Éder Gama, homenageia o tradicional Centro Espírita Pai José de Umbanda, localizado no bairro da Colônia, e faz um grave apelo às autoridades locais: salvar o terreiro antes que o avanço da erosão coloque tudo a perder.
Com mais de 30 anos de história, o terreiro é um dos mais antigos do município e símbolo da presença da Umbanda em Itacoatiara. O local abriga saberes, memórias e rituais que foram passados de geração em geração — e que agora, correm o risco de serem tragados pela força da natureza.
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Ameaça real: o barranco que avança
Construído à beira do rio Amazonas, o terreiro está diante de um problema sério: durante o período de estiagem, a margem do rio recua e forma um penhasco cerca de 15 metros de altura, expondo o local ao risco de deslizamento. O fenômeno conhecido como “terras caídas” já provocou perda de parte do terreno onde o terreiro foi fundado.
“O terreiro vai além da religião. Ele é guardião da cultura de Itacoatiara. Mas agora, é o terreiro que pode salvar essa rua, porque sem um muro de contenção, a tragédia será inevitável”, alertou o pesquisador Éder Gama, em entrevista ao Login sobre a exibição do documentário.

Mãe Lene: fé e resistência à beira do barranco
A anfitriã da noite e uma das figuras centrais do documentário é a Mãe de Santo Francilene Calixto, conhecida carinhosamente como Mãe Lene, de 70 anos, que há décadas lidera o Centro Espírita Pai José.
Com voz embargada e palavras simples, Mãe Lene compartilhou seu maior temor: ver a sua casa espiritual desaparecer com a força da natureza e o descaso do poder público.
“Eu moro numa área de risco. Já perdi 15 metros de terra. Quando chega o inverno, eu tenho muito medo. Tenho minha casa espiritual, minha piscina de Iemanjá… mas o que eu mais sonho é ver esse barranco protegido”, desabafou, emocionada.
Mesmo com as dificuldades, Mãe Lene não esmorece. Sua dedicação à religião e à comunidade é reconhecida. Na quarta-feira, 20, ela foi homenageada pela Câmara Municipal de Itacoatiara com a Medalha de Honra ao Mérito Cultural Dr. João Valério de Oliveira, concedida a mestres e mestras do patrimônio imaterial do município.

Umbanda: cultura, acolhimento e cura
O documentário também evidencia o trabalho social e espiritual realizado pelo terreiro. Lá, são acolhidas pessoas em sofrimento, jovens em busca de desenvolvimento espiritual, famílias que encontram na fé a força para seguir.
“A Umbanda é isso: é caridade, cura e amor. Nós acolhemos quem precisa, tratamos com ervas, oração, espiritualidade. Já formei sete mães de santo aqui dentro. É uma honra pra mim”, disse com orgulho Mãe Lene.
“A Umbanda é caridade” — depoimentos que tocam
Entre os muitos filhos e filhas de santo presentes, a Mãe de Santo Franciana Calixto, do culto a Oxum, emocionou o público com seu depoimento:
“Hoje eu sou feliz com minha vida espiritual. Foram muitas lutas. Mas eu venci. Eu sou apenas uma mãe de santo, mas com muito orgulho de quem me tornei. A Umbanda me ensinou a curar, acolher e formar outras líderes.”
Letícia Martins da Cruz, filha de Iansã, compartilhou sua experiência com a Umbanda desde os 14 anos, e definiu a religião com clareza:
“A verdadeira essência da Umbanda é a manifestação do espírito na prática da caridade. É isso que fazemos: curamos, amparamos, acolhemos. Nossa fé é amor, não tem espaço para ódio.”
O apelo: preservar o terreiro é preservar a história
O documentário de Éder Gama é um chamado à sensibilidade e à responsabilidade. Ao homenagear o Centro Espírita Pai José de Umbanda, ele evidencia sua importância espiritual e cultural — e mostra que a preservação do local é urgente.
Enquanto o barranco avança, a comunidade segue de pé, com fé, trabalho e resistência. Mas não poderá resistir sozinha. Sem apoio do poder público, o risco é de que parte da história de Itacoatiara desapareça, levada pelas águas do rio.
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