Lança-chamas: a arma que aterrorizou campos de batalha do século XX
Da Redação – Portal O Login da Notícia
Poucas armas ficaram tão associadas ao medo nos campos de batalha quanto o lança-chamas. A imagem de soldados carregando equipamentos capazes de projetar fogo contra posições inimigas se tornou um dos retratos mais marcantes das guerras do século XX. Embora o uso do fogo como instrumento de combate seja muito mais antigo, o lança-chamas portátil moderno ganhou destaque durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo a International Encyclopedia of the First World War, publicação acadêmica da Freie Universität Berlin com pesquisa do historiador Paul Cornish, do Imperial War Museums, o uso de lança-chamas portáteis em combate foi uma inovação daquele conflito, com o Exército alemão assumindo a liderança no desenvolvimento e emprego da arma.
Os primeiros modelos eram empregados principalmente contra trincheiras, abrigos e posições fortificadas. Os alemães utilizaram lança-chamas em ataques durante a Primeira Guerra Mundial, incluindo operações em Malancourt e Verdun. Outros países também desenvolveram ou empregaram equipamentos semelhantes ao longo do conflito. A arma buscava não apenas atingir posições inimigas, mas também produzir um forte efeito de choque durante os ataques. A experiência acumulada na Primeira Guerra Mundial contribuiu para a continuidade do desenvolvimento dos lança-chamas nas décadas seguintes. Durante a Segunda Guerra Mundial, o equipamento voltou a ser empregado em diferentes frentes de combate. O Smithsonian Institution mantém registros históricos sobre as operações com lança-chamas nesse período, incluindo informações sobre desenvolvimento, combustível, treinamento, logística e utilização pelas forças norte-americanas. (Museu Smithsonian)
O funcionamento básico do equipamento era relativamente simples: um reservatório armazenava o combustível, enquanto outro sistema fornecia a pressão necessária para projetá-lo por uma mangueira ou tubo. Em modelos utilizados pelas forças norte-americanas durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o combustível era armazenado em um dos tanques e o gás comprimido em outro; ao serem combinados e expelidos, produziam a chama. O Smithsonian registra um modelo norte-americano M2A1 e descreve sua estrutura e funcionamento.
Ao longo do século XX, os lança-chamas foram utilizados em diferentes conflitos e ganharam fama por sua capacidade de atingir posições onde outros armamentos poderiam encontrar dificuldades. Em trincheiras, bunkers, cavernas e outras estruturas fortificadas, o fogo podia ser empregado como instrumento de combate. Ao mesmo tempo, os efeitos provocados pelas armas incendiárias passaram a gerar preocupação cada vez maior no debate sobre os limites da guerra. A combinação de chamas e calor capaz de provocar queimaduras graves fez com que esse tipo de armamento se tornasse particularmente controverso.
É justamente nesse ponto que surge uma das principais lendas sobre a arma: a ideia de que os lança-chamas teriam sido totalmente proibidos em guerras a partir de 1960. A informação é incorreta. Não houve, naquele ano, uma proibição internacional geral dos lança-chamas. As principais regras internacionais específicas sobre armas incendiárias foram estabelecidas posteriormente, com o Protocolo III da Convenção sobre Certas Armas Convencionais, adotado em Genebra em 10 de outubro de 1980 e que entrou em vigor em 2 de dezembro de 1983. O próprio Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) registra essas datas.
O Protocolo III define como arma incendiária qualquer arma ou munição projetada principalmente para incendiar objetos ou provocar queimaduras por meio de chamas ou calor. Entre os exemplos, o documento cita expressamente os lança-chamas, além de bombas, foguetes, granadas, minas e outros recipientes de substâncias incendiárias. (CICR)
As regras estabelecidas pelo protocolo são rigorosas, mas isso não significa que todos os usos de armas incendiárias tenham sido simplesmente proibidos. O artigo 2 determina que é proibido, em qualquer circunstância, utilizar armas incendiárias para atacar a população civil, civis individualmente ou objetos civis. Também existem restrições específicas para ataques contra objetivos militares localizados em áreas com concentração de civis.
Dessa forma, o que ocorreu foi a criação de restrições internacionais ao uso de armas incendiárias, incluindo lança-chamas, com o objetivo de limitar seus efeitos sobre civis e determinados alvos. A própria documentação do CICV diferencia as situações proibidas daquelas submetidas a restrições específicas.
A história do lança-chamas, portanto, acompanha uma das grandes transformações da guerra moderna: o desenvolvimento de armas cada vez mais capazes de atingir o inimigo e, ao mesmo tempo, a criação de normas destinadas a limitar os efeitos mais devastadores dos conflitos. De inovação militar na Primeira Guerra Mundial a símbolo de brutalidade no imaginário popular, o lança-chamas permanece associado a alguns dos episódios mais violentos do século XX e ao debate internacional sobre os limites aceitáveis do uso da força.
Por: Bruno Pacheco, jornalista, estudante de Direito e apaixonado pela história mundial.




