Onça-pintada: estudo identifica em 11 países e territórios a “espinha dorsal” da conservação da espécie
Estudo liderado por pesquisador do Instituto Mamirauá e da Universidade de Oxford identificou uma rede de 6,5 milhões de km² para conservar onças-pintadas. (Foto/Divulgação)
Da Redação – Portal O Login da Notícia
Estudo liderado por pesquisador do Instituto Mamirauá e da Universidade de Oxford reúne dados de monitoramento de GPS de 172 onças-pintadas para avaliar a conectividade da espécie em toda a sua área de ocorrência. A “espinha dorsal” de uma extensa área conectando os animais ao longo da América do Sul foi identificada e anima os pesquisadores, porém eles também apontam áreas críticas pressionadas por desmatamento
A mais abrangente compilação de informações sobre a movimentação de onças-pintadas produzida até o momento avaliou a conectividade das populações de onça-pintada em toda a sua área atual de ocorrência, que abrange da fronteira dos EUA e o México ao norte da Argentina na América do Sul.
Pela primeira vez em uma análise continental desse porte, registros reais da movimentação dos animais, obtidos por meio de colares de GPS instalados em 172 onças-pintadas foram utilizados para produzir mapas de conectividade para a espécie. Entre os principais resultados, a pesquisa revelou uma vasta região conectada na América do Sul, com aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, que se estende pelo território de 11 países e funciona como uma espécie de “espinha dorsal” para a conservação do maior felino das Américas. É por meio desta enorme área núcleo que diferentes populações de onças-pintadas ainda podem se deslocar, encontrar outros indivíduos e manter a diversidade genética necessária à sobrevivência da espécie no longo prazo.
Liderado pelo pesquisador brasileiro Guilherme Costa Alvarenga, o artigo é resultado de uma ampla colaboração internacional que reúne 39 pesquisadores vinculados a universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e organizações de conservação de diferentes países. Guilherme é pesquisador associado ao Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do Instituto Mamirauá e integrante da Wildlife Conservation Research Unit (WildCRU), do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford. Publicado na revista científica Global Change Biology, o trabalho utilizou a mais abrangente compilação de informações sobre a movimentação da espécie reunida até o momento.
Ao mesmo tempo que identifica essa grande conexão sul-americana, a pesquisa mostra que ela não se estende de forma contínua por toda a área de ocorrência da onça-pintada. Em diferentes pontos do continente americano, estradas, cidades, áreas agrícolas e outras transformações dos ambientes naturais interrompem ou dificultam a passagem dos animais, deixando algumas populações cada vez mais isoladas.
Por que as onças precisam estar conectadas?
Para uma onça-pintada, uma área de floresta conservada, mas isolada, pode não ser suficiente. O animal precisa conseguir atravessar para outras áreas florestadas para buscar alimento, estabelecer sua área de vida, encontrar parceiros e se reproduzir. Por isso, além de seu habitat, é necessário conservar os corredores (caminhos) que permitem seu deslocamento entre diferentes populações de diferentes áreas naturais.
É isso que os pesquisadores chamam de conectividade. Ela depende da existência de áreas naturais suficientemente próximas ou interligadas, sem obstáculos que impeçam a passagem dos animais. Quando essa conexão é rompida pelo desmatamento, por estradas, cidades ou grandes áreas ocupadas por atividades humanas, as populações podem ficar separadas umas das outras.
Uma das principais consequências desse isolamento é a redução do chamado fluxo gênico. Em termos simples, esse fluxo é a troca de características genéticas que ocorre quando animais de populações diferentes se encontram e se reproduzem. Essa troca ajuda a preservar a diversidade genética e reduz a vulnerabilidade de populações pequenas, contribuindo para evitar desaparecimentos locais e, no longo prazo, sendo crucial para a conservação da espécie.
“Quando o ambiente natural é reduzido e fragmentado, menos indivíduos conseguem sobreviver naquele espaço. Além disso, sem a possibilidade de se deslocar, os animais passam a se reproduzir apenas dentro do mesmo grupo, aumentando os cruzamentos entre indivíduos aparentados. Ao longo do tempo, isso pode reduzir a capacidade de adaptação da população e favorecer doenças de origem genética. Esse processo já foi identificado em populações de onças-pintadas da Mata Atlântica e da América Central, justamente onde nossos modelos indicam baixa conectividade”, explica Guilherme Alvarenga.
A maior base de dados de movimentação da espécie
A pesquisa foi desenvolvida com dados de 86 fêmeas e 86 machos monitorados com colares de GPS, totalizando 231.017 registros de localização. A base reúne animais de diferentes ecossistemas e condições ambientais encontrados ao longo da área de ocorrência da espécie.
A partir dessas informações, os pesquisadores analisaram como diferentes características do território facilitam ou dificultam o deslocamento das onças. Fatores como maior concentração de pessoas, presença de rebanhos e transformação dos ambientes naturais tiveram os efeitos negativos mais fortes.
Em sentido oposto, áreas ecologicamente mais produtivas — capazes de oferecer mais recursos para a vida silvestre — e próximas de rios, lagos e outros corpos d’água mostraram-se mais favoráveis à espécie.
Os dados foram utilizados para construir modelos que representam os possíveis caminhos percorridos pelas onças entre diferentes áreas. Os pesquisadores consideraram o conjunto de florestas, rios, áreas agrícolas, estradas, cidades e outros ambientes que formam cada território, avaliando quais deles oferecem maior ou menor resistência à passagem dos animais. São dados fundamentais para a tomada de decisão de gestores públicos e para os esforços locais de conservação da onça-pintada.
Tecnologia para uma nova etapa do planejamento continental
A pesquisa dá continuidade a um esforço científico iniciado há cerca de 15 anos, quando a primeira avaliação da conectividade da onça-pintada em toda a sua área de distribuição ajudou a estabelecer as bases da Jaguar Corridor Initiative, uma das principais referências para o planejamento da conservação da espécie no continente.
Naquele momento, diante da quantidade ainda limitada de informações disponíveis, o mapa foi construído principalmente a partir do conhecimento acumulado por especialistas. Desde então, novas tecnologias ampliaram significativamente a capacidade de acompanhar a movimentação dos animais, enquanto os territórios ocupados pela espécie também passaram por profundas transformações.
O novo estudo atualiza esse panorama com uma base de dados sem precedentes. Os mais de 231 mil registros de localização permitiram observar como as onças respondem a diferentes condições do território e construir um retrato mais detalhado das conexões que ainda existem — e daquelas que precisam ser recuperadas.
307 áreas núcleo e 176 corredores
Os pesquisadores identificaram e mapearam 307 áreas consideradas centrais para a movimentação das onças-pintadas. Juntas, elas abrangem aproximadamente 7,75 milhões de quilômetros quadrados, equivalentes a 55% da área atual de distribuição da espécie. Cerca de metade dessa extensão está localizada dentro de áreas protegidas e Terras Indígenas.
Essas áreas núcleo são territórios que reúnem condições mais favoráveis para a presença, a movimentação e a dispersão das onças. A maior e mais importante delas ocupa aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se pelos Llanos, Amazônia, Gran Chaco e pelo Pantanal.
O estudo também identificou 176 corredores de dispersão entre estas áreas núcleo. Os corredores são faixas do território que possibilitam o deslocamento dos animais entre locais onde existem populações da espécie. Eles não precisam ser formados exclusivamente por habitats intactos, mas devem oferecer condições para que as onças consigam atravessá-los.
Na América do Sul, o levantamento encontrou uma grande rede conectada envolvendo Llanos, Amazônia, Gran Chaco, Pantanal, Cerrado, Caatinga, e a Mata Atlântica no chamado Corredor Verde, localizado entre Argentina e Brasil. Essa é a maior e mais significativa rede de conexão identificada pelo estudo.
O cenário é diferente no México e na América Central, onde foram encontradas várias interrupções entre as populações de onças. Na Mata Atlântica costeira brasileira, as áreas ocupadas pela espécie também aparecem amplamente isoladas tanto da grande rede sul-americana quanto umas das outras.
Onde as ações podem produzir maior impacto
Ao identificar e comparar as principais áreas ocupadas pelas onças e os caminhos que podem conectá-las, o estudo mostra onde as ações de conservação podem produzir maior impacto. São as chamadas áreas prioritárias para a conservação da espécie: lugares especialmente importantes para proteger populações, impedir que conexões ainda existentes sejam rompidas ou recuperar caminhos que já foram degradados.
Essas prioridades não significam que outras áreas tenham menor valor ou possam ficar sem proteção. Em alguns casos, populações pequenas e isoladas precisam justamente de atenção mais urgente. Os mapas funcionam como ferramentas para ajudar governos, organizações ambientais e gestores territoriais a decidir onde conservar a vegetação, restaurar ambientes degradados, reduzir conflitos com grandes felinos ou criar novas áreas protegidas.
“Os resultados funcionam como um mapa de onde as ações de conservação podem ser mais efetivas para manter ou recuperar as conexões entre as populações. Governos e organizações podem usar esse material como ponto de partida para estudos locais, identificar áreas estratégicas e direcionar melhor os recursos disponíveis”, afirma Alvarenga.
Entre as medidas indicadas estão a restauração de áreas importantes para o deslocamento das onças, o combate à caça e a redução dos conflitos entre pessoas e grandes felinos. Em situações específicas, também podem ser consideradas a translocação ou a reintrodução de animais, com o objetivo de recuperar populações e restabelecer a diversidade genética.
As regiões localizadas nos limites da distribuição da espécie merecem atenção especial. Nesses locais, a pressão humana costuma ser mais intensa, e novas perdas de habitat podem tornar inviável a recuperação de populações já pequenas e isoladas.
Áreas protegidas e Terras Indígenas
Em uma segunda análise, os pesquisadores avaliaram especificamente as possíveis conexões entre áreas protegidas e Terras Indígenas. O modelo identificou 507 corredores potenciais entre 905 áreas distribuídas ao longo da ocorrência atual da onça-pintada.
Grande parte das áreas mais bem posicionadas nessa análise está na Amazônia. Segundo o estudo, esses territórios são decisivos porque abrigam as maiores e mais estáveis populações da espécie e mantêm conexões internas por meio de alguns dos corredores mais importantes identificados pela pesquisa.
Fora da Amazônia, áreas localizadas na Floresta Maia, na América Central, no Chaco e na Mata Atlântica também cumprem funções estratégicas para conectar populações fragmentadas e manter a presença regional da espécie.
A análise das áreas núcleo oferece um retrato mais próximo das atuais condições de ocorrência e movimentação das onças. Já o levantamento das áreas protegidas e Terras Indígenas ajuda a reconhecer oportunidades para a conservação no longo prazo, inclusive indicando locais estratégicos para restaurar conexões ou criar novas áreas protegidas.
Os mapas e as camadas geográficas produzidos pela pesquisa foram disponibilizados publicamente. Assim, os resultados poderão ser utilizados por governos, organizações ambientais, pesquisadores e gestores territoriais no planejamento de políticas e ações de conservação.
Conexões que ainda precisam ser investigadas
O estudo também apontou conexões potenciais que precisarão ser verificadas por novas pesquisas em campo. Uma delas poderia ligar a região de Darién, na fronteira entre Panamá e Colômbia, aos Llanos e à Amazônia, passando pela Colômbia e pela Venezuela.
Outra possível conexão ligaria o Corredor Verde–Iguaçu, na divisa entre Argentina e Brasil, à Serra do Mar, entre Paraná e São Paulo. Ambas as possibilidades apareceram em apenas um dos modelos e, portanto, devem ser interpretadas com maior cautela. Entretanto, se confirmadas em campo, representarão um grande avanço para conservação da espécie. A primeira, por linkar as populações das Américas Central e do Sul, e a segunda por conectar as populações de onças-pintadas da Mata Atlântica, reconhecidas por seu elevado grau de isolamento e vulnerabilidade.
Uma rede internacional pela conservação da onça-pintada
Cinco autores do artigo estão vinculados ao Instituto Mamirauá: Guilherme Costa Alvarenga, Diogo Maia Gräbin, Emiliano Esterci Ramalho, Louise Maranhão e Marcos Roberto Monteiro de Brito.
Organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Instituto Mamirauá é um centro de excelência em pesquisa e conservação da biodiversidade que atua em áreas protegidas da Amazônia. Há mais de 20 anos, seu Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia conduz a mais longeva pesquisa dedicada às onças-pintadas na região amazônica.
Na Universidade de Oxford, o trabalho está vinculado à Wildlife Conservation Research Unit (WildCRU), unidade do Departamento de Biologia dedicada à construção de soluções práticas para problemas de conservação por meio da pesquisa científica.
A colaboração reuniu pesquisadores vinculados a instituições do Brasil, Reino Unido, Argentina, Estados Unidos, Espanha, México, Noruega, Bolívia e Canadá. O artigo também reconhece a contribuição dos pesquisadores de campo, guias locais e comunidades tradicionais e locais que autorizaram e apoiaram as pesquisas que deram origem aos dados.
Além do Instituto Mamirauá e da Universidade de Oxford, estão representadas na autoria do estudo as seguintes instituições e organizações:
• Universidade Vila Velha;
• Universidade Federal do Pará;
• Panthera;
• Universidade Nacional de Río Cuarto;
• Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina;
• Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais;
• Universidade Federal de Mato Grosso do Sul;
• Fundación Rewilding Argentina;
• Wildlife Conservation Society, por meio do WCS Big Cat Program;
• Universidade Federal de São João del-Rei;
• Estação Biológica de Doñana, do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha;
• Wildlife Protection Solutions;
• Universidade Nacional Autônoma do México;
• Instituto Homem Pantaneiro;
• Universidade Autônoma Metropolitana, do México;
• Primero Conservation;
• Universidade do Estado de Mato Grosso;
• Associação Onçafari;
• San Diego Zoo Wildlife Alliance;
• Museu de História Natural da Universidade de Oslo;
• WWF-Bolívia;
• Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade;
• WWF, nos Estados Unidos;
• Universidade da Colúmbia Britânica;
• Alianza Jaguar;
• Universidade Michoacana de San Nicolás de Hidalgo;
• WWF-México;
• WWF-Reino Unido;
• Universidade do Norte do Arizona.
Sobre o artigo
Título: Jaguar Range-Wide Connectivity: Prioritising Core Areas and Corridors Between and Within Protected Areas and Indigenous Lands
Tradução livre: Conectividade da onça-pintada em toda a sua distribuição: priorização de áreas centrais e corredores entre e dentro de áreas protegidas e Terras Indígenas
Revista: Global Change Biology
Autor principal: Guilherme Costa Alvarenga
DOI: https://doi.org/10.1111/gcb.71093
Acesso: artigo científico de acesso aberto




